Por Cristovam Buarque
Há exatos cem anos, saía da vida para a história um dos maiores brasileiros de todos os tempos: o pernambucano Joaquim Nabuco. Político que ousou pensar, intelectual que não se omitiu em agir, pensador e ativista com causa, principal artífice da abolição do regime escravocrata no Brasil. Apesar da vitória conquistada, Joaquim Nabuco reconhecia: "Acabar com a escravidão não basta. É preciso acabar com a obra da escravidão", como lembrou na semana passada Marcos Vinicios Vilaça, em solenidade na Academia Brasileira de Letras.
Mas a obra da escravidão continua viva, sob a forma da exclusão social: pobres, especialmente negros, sem terra, sem emprego, sem casa, sem água, sem esgoto, muitos ainda sem comida; sobretudo sem acesso à educação de qualidade.
Ainda que não aceitemos vender, aprisionar e condenar seres humanos ao trabalho forçado pela escravidão - mesmo quando o trabalho escravo permanece em diversas partes do território brasileiro -, por falta de qualificação, condenamos milhões ao desemprego ou trabalho humilhante. Em 1888, libertamos 800 mil escravos, jogando-os na miséria. Em 2010, negamos alfabetização a 14 milhões de adultos, negamos Ensino Médio a 2/3 dos jovens. De 1888 até nossos dias, dezenas de milhões morreram adultos sem saber ler.
Cem anos depois da morte de Joaquim Nabuco, a obra da escravidão se mantém e continuamos escravocratas.
Somos escravocratas ao deixarmos que a escola seja tão diferenciada, conforme a renda da família de uma criança, quanto eram diferenciadas as vidas na Casa Grande ou na Senzala. Somos escravocratas porque, até hoje, não fizemos a distribuição do conhecimento: instrumento decisivo para a liberdade nos dias atuais. Somos escravocratas porque todos nós, que estudamos, escrevemos, lemos e obtemos empregos graças aos diplomas, beneficiamo-nos da exclusão dos que não estudaram. Como antes, os brasileiros livres se beneficiavam do trabalho dos escravos.
Somos escravocratas ao jogarmos, sobre os analfabetos, a culpa por não saberem ler, em vez de assumirmos nossa própria culpa pelas decisões tomadas ao longo de décadas. Privilegiamos investimentos econômicos no lugar de escolas e professores. Somos escravocratas, porque construímos universidades para nossos filhos, mas negamos a mesma chance aos jovens que foram deserdados do Ensino Médio completo com qualidade. Somos escravocratas de um novo tipo: a negação da educação é parte da obra deixada pelos séculos de escravidão.
A exclusão da educação substituiu o sequestro na África, o transporte até o Brasil, a prisão e o trabalho forçado. Somos escravocratas que não pagamos para ter escravos: nossa escravidão ficou mais barata e o dinheiro para comprar os escravos pode ser usado em benefício dos novos escravocratas. Como na escravidão, o trabalho braçal fica reservado para os novos escravos: os sem educação.
Negamo-nos a eliminar a obra da escravidão.
Somos escravocratas porque ainda achamos naturais as novas formas de escravidão; e nossos intelectuais e economistas comemoram minúscula distribuição de renda, como antes os senhores se vangloriavam da melhoria na alimentação de seus escravos, nos anos de alta no preço do açúcar. Continuamos escravocratas, comemorando gestos parciais. Antes, com a proibição do tráfico, a lei do ventre livre, a alforria dos sexagenários. Agora, com o bolsa família, o voto do analfabeto ou a aposentadoria rural. Medidas generosas, para inglês ver e sem a ousadia da abolição plena.
Somos escravocratas porque, como no século XIX, não percebemos a estupidez de não abolirmos a escravidão. Ficamos na mesquinhez dos nossos interesses imediatos negando fazer a revolução educacional que poderia completar a quase-abolição de 1888. Não ousamos romper as amarras que envergonham e impedem nosso salto para uma sociedade civilizada, como, por 350 anos, a escravidão nos envergonhava e amarrava nosso avanço.
Cem anos depois da morte de Joaquim Nabuco, a obra criada pela escravidão continua, porque continuamos escravocratas. E ao continuarmos escravocratas, não libertamos os escravos condenados à falta de educação.
__________________________
Cristovam Buarque é Professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF
Fonte: Artigo publicado no jornal O Globo de sábado, 30 de janeiro.
Fonte: Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal
terça-feira, 1 de junho de 2010
sexta-feira, 12 de março de 2010
Cotas Racias nas Universidades!!!
Nunca tive dúvidas de que as sociedades evoluem com os governos, sem os governos, apesar dos governos ou mesmo contra os governos. Se o poder de turno estiver antenado com as aspirações nacionais, se tiver sensibilidade social e conseguir captar nos mínimos detalhes a mudança dos tempos, a virada dos ventos, a evolução do homem, a transformação das coisas, tanto melhor.
Na histórica fábula, o galo de Chantecler acreditava que o sol nascia somente depois que ele cantava. Até o dia em que ele, mudo, assistiu o mais belo alvorecer. O governo Lula instituiu a política de cotas raciais nas universidades brasileiras não só como resposta à uma exigência da evolução da sociedade, mas como reparação de injustiça histórica com nossos irmãos afrodescendentes e indígenas, por ter sensibilidade humana e social e por saber que seu sucesso vem da identidade que tem mantido com toda as camadas da sociedade brasileira.
Não só respeito como defendo o direito dos que não concordam com a política de cotas. Defendo de forma veemente o direito que cada cidadã ou cidadão tem de discordar de uma medida do governo do presidente Lula. Mas, com absoluta sinceridade, nesse caso, mesmo defendendo tal faculdade, tenho imensa dificuldade em compreender como se pode negar a quem tanto já sofreu – e ainda sofre, pois não? – tantas e odiosas formas de discriminação, o direito de ter acesso ao ensino superior e de ascender socialmente.
Não creio que seja uma forma de racismo discordar das cotas. Não chego a tanto. Sempre, até por minha formação democrática e socialista, aprendi a conviver fraternalmente com os opostos e estabelecer amizades duradouras e verdadeiras com pessoas que não pensam como eu. A intolerância, com a graça de Deus, não é o meu forte. E é por isso mesmo que defendo as cotas raciais e vejo nelas a possibilidade de reparar injustiças e relegar ao passado o debate em torno de uma questão espinhosa e nada grata a um país que demorou séculos para livrar-se da nódoa repulsiva da escravidão.
O Brasil tem uma dívida imensa com seus negros, seus indígenas, seus idosos, seus deficientes físicos. Por qual motivo não se podem reparar injustiças em relação a esses irmão que não foram senão discriminados? Que tiveram seus direitos negados parcialmente ou em sua totalidade ao longo de séculos? Por motivo nenhum!
A Universidade de Brasília (UnB), através a palavra de sua reitoria em recente audiência pública, mostrou que em 2001 apenas 2% de seus alunos eram negros. Hoje são 12,5%! E o desempenho da quase totalidade desses brasileiros afrodescendentes que chegaram à universidade através da política de cotas raciais empreendida pelo governo Lula é invejável! São estudantes que aproveitaram a possibilidade de estudo universitário com extraordinária seriedade e notório afinco. A vida universitária deles é o coroamento de uma atitude corajosa e necessária que somente um governo com raízes populares e sensibilidade social poderia ter tomado.
Em 60 universidades públicas brasileiras o sistema de cotas foi adotado de forma democrática, respeitando a autonomia de cada instituição, e com grande aceitação pela comunidade acadêmica. O Ministro Edson Santos, que desenvolve excepcional trabalho na pasta da Igualdade Racial, sempre relembra que não estão em jogo apenas as cotas para negros, mas as ações afirmativas do governo Lula em favor das mulheres, dos deficientes físicos e de outros segmentos sociais. Há mais em jogo: há futuro, igualdade, democracia e possibilidades.
Os Estados Unidos, a mais importante potência mundial, celebrou a eleição de Barack Obama para a Casa Branca por vários fatores: sua honradez pessoal, sua passagem brilhante pelo Senado norte-americano, as idéias inovadoras que defendeu na campanha que sacudiu o país, sua juventude e equilíbrio. Mas sua negritude foi elevada à condição de marco histórico e verdadeira revolução nos costumes políticos e sociais de um país que ainda luta contra resquícios de uma chaga que causou até mesmo uma guera civil do norte rico, progressista e anti-racista contra o sul atrasado e escravagista.
Se os norte-americanos entenderam que a eleição de um jovem negro para a Casa Branca, além de todos os seus méritos, simbolizava um basta ao racismo, então defendamos a política de cotas raciais nas universidades brasileiras como um marco na emancipação de uma imensa parcela do povo brasileiro, a de nossos compatriotas negros. Não sejamos hipócritas e sigamos o belo exemplo do povo norte-americano: o racismo se combate com atitudes concretas e com exemplos simbólicos.
Muito se dizia da democracia racial e da mistura de raças que forma esse país fascinante em que tivemos a graça divina de nascer. Mas existia um elevado grau de racismo que se manifestava de forma discreta mas efetiva, e na pior de suas formas: a segregação social. Eu mesmo creio que, hoje já não seja em grau tão elevado quanto foi no passado. A própria sociedade brasileira, em sua evolução segura rumo ao futuro de grandeza que a espera, se encarregou de eliminar muitos dos terríveis preconceitos que penalizaram esses segmentos sociais e nos envergonharam a todos. Mas, lamentavelmente, muita coisa ainda persiste e não vamos fechar os olhos para essa realidade.
Nélson Mandela pacificou a Africa do Sul quando, depois de décadas no cárcere, adentrou o estádio lotado para cumprimentar a seleção sul-africana de rúgbi, que vencia importante campeonato. Todos os atletas eram brancos, quase todos os que enchiam as arquibancadas eram brancos, mas o esporte era a paixão de todos em seu país. Em segundos, Mandela era ovacionado, era o verdadeiro campeão. Uniu seu país com o gesto generoso, com a grandeza de sua alma, com a dignidade de Estadista. Assisti o belíssimo filme “Invictus”, ao lado de Monica, minha mulher, onde o fabuloso Morgan Freeman interpreta Mandela e nos revela essa linda página da história do povo sul-africano. Recordei-me de nossos irmãos negros brasileiros e da generosidade que deve presidir as relações entre todos nós, qual seja a raça, pois nossa cor é uma só: a cor do Brasil, a cor do futuro.
(*) Delúbio Soares é professor
Na histórica fábula, o galo de Chantecler acreditava que o sol nascia somente depois que ele cantava. Até o dia em que ele, mudo, assistiu o mais belo alvorecer. O governo Lula instituiu a política de cotas raciais nas universidades brasileiras não só como resposta à uma exigência da evolução da sociedade, mas como reparação de injustiça histórica com nossos irmãos afrodescendentes e indígenas, por ter sensibilidade humana e social e por saber que seu sucesso vem da identidade que tem mantido com toda as camadas da sociedade brasileira.
Não só respeito como defendo o direito dos que não concordam com a política de cotas. Defendo de forma veemente o direito que cada cidadã ou cidadão tem de discordar de uma medida do governo do presidente Lula. Mas, com absoluta sinceridade, nesse caso, mesmo defendendo tal faculdade, tenho imensa dificuldade em compreender como se pode negar a quem tanto já sofreu – e ainda sofre, pois não? – tantas e odiosas formas de discriminação, o direito de ter acesso ao ensino superior e de ascender socialmente.
Não creio que seja uma forma de racismo discordar das cotas. Não chego a tanto. Sempre, até por minha formação democrática e socialista, aprendi a conviver fraternalmente com os opostos e estabelecer amizades duradouras e verdadeiras com pessoas que não pensam como eu. A intolerância, com a graça de Deus, não é o meu forte. E é por isso mesmo que defendo as cotas raciais e vejo nelas a possibilidade de reparar injustiças e relegar ao passado o debate em torno de uma questão espinhosa e nada grata a um país que demorou séculos para livrar-se da nódoa repulsiva da escravidão.
O Brasil tem uma dívida imensa com seus negros, seus indígenas, seus idosos, seus deficientes físicos. Por qual motivo não se podem reparar injustiças em relação a esses irmão que não foram senão discriminados? Que tiveram seus direitos negados parcialmente ou em sua totalidade ao longo de séculos? Por motivo nenhum!
A Universidade de Brasília (UnB), através a palavra de sua reitoria em recente audiência pública, mostrou que em 2001 apenas 2% de seus alunos eram negros. Hoje são 12,5%! E o desempenho da quase totalidade desses brasileiros afrodescendentes que chegaram à universidade através da política de cotas raciais empreendida pelo governo Lula é invejável! São estudantes que aproveitaram a possibilidade de estudo universitário com extraordinária seriedade e notório afinco. A vida universitária deles é o coroamento de uma atitude corajosa e necessária que somente um governo com raízes populares e sensibilidade social poderia ter tomado.
Em 60 universidades públicas brasileiras o sistema de cotas foi adotado de forma democrática, respeitando a autonomia de cada instituição, e com grande aceitação pela comunidade acadêmica. O Ministro Edson Santos, que desenvolve excepcional trabalho na pasta da Igualdade Racial, sempre relembra que não estão em jogo apenas as cotas para negros, mas as ações afirmativas do governo Lula em favor das mulheres, dos deficientes físicos e de outros segmentos sociais. Há mais em jogo: há futuro, igualdade, democracia e possibilidades.
Os Estados Unidos, a mais importante potência mundial, celebrou a eleição de Barack Obama para a Casa Branca por vários fatores: sua honradez pessoal, sua passagem brilhante pelo Senado norte-americano, as idéias inovadoras que defendeu na campanha que sacudiu o país, sua juventude e equilíbrio. Mas sua negritude foi elevada à condição de marco histórico e verdadeira revolução nos costumes políticos e sociais de um país que ainda luta contra resquícios de uma chaga que causou até mesmo uma guera civil do norte rico, progressista e anti-racista contra o sul atrasado e escravagista.
Se os norte-americanos entenderam que a eleição de um jovem negro para a Casa Branca, além de todos os seus méritos, simbolizava um basta ao racismo, então defendamos a política de cotas raciais nas universidades brasileiras como um marco na emancipação de uma imensa parcela do povo brasileiro, a de nossos compatriotas negros. Não sejamos hipócritas e sigamos o belo exemplo do povo norte-americano: o racismo se combate com atitudes concretas e com exemplos simbólicos.
Muito se dizia da democracia racial e da mistura de raças que forma esse país fascinante em que tivemos a graça divina de nascer. Mas existia um elevado grau de racismo que se manifestava de forma discreta mas efetiva, e na pior de suas formas: a segregação social. Eu mesmo creio que, hoje já não seja em grau tão elevado quanto foi no passado. A própria sociedade brasileira, em sua evolução segura rumo ao futuro de grandeza que a espera, se encarregou de eliminar muitos dos terríveis preconceitos que penalizaram esses segmentos sociais e nos envergonharam a todos. Mas, lamentavelmente, muita coisa ainda persiste e não vamos fechar os olhos para essa realidade.
Nélson Mandela pacificou a Africa do Sul quando, depois de décadas no cárcere, adentrou o estádio lotado para cumprimentar a seleção sul-africana de rúgbi, que vencia importante campeonato. Todos os atletas eram brancos, quase todos os que enchiam as arquibancadas eram brancos, mas o esporte era a paixão de todos em seu país. Em segundos, Mandela era ovacionado, era o verdadeiro campeão. Uniu seu país com o gesto generoso, com a grandeza de sua alma, com a dignidade de Estadista. Assisti o belíssimo filme “Invictus”, ao lado de Monica, minha mulher, onde o fabuloso Morgan Freeman interpreta Mandela e nos revela essa linda página da história do povo sul-africano. Recordei-me de nossos irmãos negros brasileiros e da generosidade que deve presidir as relações entre todos nós, qual seja a raça, pois nossa cor é uma só: a cor do Brasil, a cor do futuro.
(*) Delúbio Soares é professor
sábado, 10 de outubro de 2009
Para outra Humanidade, outra Comunicação..
Para outra Humanidade, outra Comunicação.
Ser pessoa é ser relação. Ser relação é ser comunicação. Somos sempre um “nós”. Viver é conviver. E conviver é comunicar-se
A capacidade de comunicação da Humanidade vai sendo cada vez mais universal e mais imediata, na medida em que a Humanidade vai-se sentindo mais “una” e são mais os meios de comunicação e sua técnica é mais criativa. As distâncias se encurtam e de todos os rincões da nossa casa comum, que é a Terra, podemos nos tornar presença sensível.
Mas sucede que, muito antes de inventar qualquer tipo de técnica de comunicação, a Humanidade já tinha inventado o egoísmo e a hybris da dominação e os recursos malignos da mentira.
Hoje o capitalismo neoliberal, prepotente e excludente, que se apodera de tudo para fazer de tudo mercado e lucro, tem se apoderado, quase totalmente, da comunicação. Quem tem o capital tem a comunicação e a manipula e a explora e distorce. Por cima de todas as fronteiras, atropelando os mais legítimos direitos, apoderando-se da verdade, impondo como única e universal “sua” verdade: o pensamento único, o único sistema sócio-econômico, uma história definida e inevitável.
Nós nos negamos a aceitar o jugo. Cremos, até pela mais entranhada necessidade, que outro mundo é possível. Queremos ser a Humanidade una, mas de outro modo, na liberdade e na igualdade, na convivência pacífica e na pluralidade complementar. A Humanidade neoliberalizada não encaixa em nossos sonhos nem encaixa nos desígnios de Deus. Somos, queremos, vamos fazendo, outra Humanidade.
Humanizar a Humanidade é a tarefa de toda educação, de toda comunicação, de toda política e toda religião que mereçam ser.
Antes falávamos dos meios de comunicação como sendo o “quarto poder”. Hoje temos que reconhecê-los como “o primeiro poder” em extensão e em penetração. Quem tem a comunicação tem o Mundo. Mc Luhan reconhecia que “não há equipe de sociólogos capaz de competir com as equipes de publicidade...” E esse poder está muito iniquamente repartido na “aldeia global da comunicação”. Segundo a UNESCO, na década dos 90, EUA, UE e Japão possuíam 273 dos 300 principais meios de comunicação; o resto do Mundo possuía apenas 27. De cada 100 usuários da Internet, 92 se encontram nos paises do Norte. E este processo de concentração mediática tem-se acelerado com o avanço da globalização. Na atualidade, umas poucas empresas dominam o mercado mundial das telecomunicações: ATT/Liberty Media, Disney, Time Warner, Sony, News Corporation, Viacom e Seagram, todas elas estadunidenses, além da alemã Bertelsman. (sem falar no domínio dos grupos monopolizadores no Brasil)
Poder perigoso, esse da comunicação, aliado às vezes direitamente com certos poderes de morte. As últimas guerras têm sido um repulsivo exemplo da maridagem das armas e a informação. E mais uma vez tem-se demonstrado que a verdade é a primeira vítima em uma guerra. Não há muito saltou também ao conhecimento público que Le Figaro e Le Monde, tradicionais jornais franceses, eram adquiridos por empresas cuja fortuna se baseia principalmente na fabricação de armas...
Livros, revistas, jornais, congressos, ONGs, multiplicam os alertas, as diatribes e os programas acerca da informação e desinformação, controle ou liberdade de comunicação, comunicação alternativa, alfabetização mediática crítica... “Democratizar a informação para democratizar a sociedade”. “Estamos sendo inoculados pelo vírus da amnésia”. “No fim do 2003, 42 jornalistas tinham tombado no mundo por tentar exercer sua missão”. “A segurança limita a informação”. “As armas da falsidade massiva”. “A informação tem-se transformado quase por completo em propaganda”. “Em teoria, justifica-se a publicidade afirmando que é pura informação; na realidade, é imposição”. “As coisas claras são a diferença entre a democracia e a ditadura”. “Construir a opinião pública”. “Limitações constitucionais à liberdade de informação, uso repressivo das leis, processos contra o segredo das fontes, estabelecimento de códigos éticos restritivos, os Patriot Acts..., são outras tantas espadas de Damocles oficiais sobre as cabeças dos comunicadores”. Quanto mais informação, mais possível desinformação, mais informação tergiversadora. O escritor estadunidense Timothy D. Allman chegou a afirmar: “Para saber o que se passa nos EUA tenho que ver a TV canadense”.
Para uma autêntica cidadania mediática, essa “outra Comunicação para outra Humanidade”, devemos impulsionar simultaneamente:
- A prática habitual da comunicação: consigo, com Deus, com o Universo, na família, na vizinhança, no trabalho, na luta e na festa, na vida. O ser humano é “o grande meio de comunicação”; depois vêm “os meios”.
- A conscientização.
- A educação responsável para a comunicação.
- A “leitura” crítica de toda informação.
- A criação de informação alternativa e o respaldo constante à mesma.
- A contestação organizada contra todo controle, monopólio ou mentira.
- O rechaço de todo imperialismo cultural.
E, todo dia, a partir do mais caseiro espaço de que dispomos até as crescentes grandes manifestações, exercer esse supremo dom humano da comunicação, na verdade, na compreensão, na solidariedade. Nos comunicar para nos conhecer. Nos comunicar para nos acolher. Nos comunicar para juntos nos salvar.
Esta reflexão abre alguns horizontes, aponta pistas, nos convida a ser e a fazer comunicação, a outra Comunicação que a outra Humanidade sonhada necessita.
D. Pedro Casaldáliga
(Bispo, Poeta, Mártir da vida)
Ser pessoa é ser relação. Ser relação é ser comunicação. Somos sempre um “nós”. Viver é conviver. E conviver é comunicar-se
A capacidade de comunicação da Humanidade vai sendo cada vez mais universal e mais imediata, na medida em que a Humanidade vai-se sentindo mais “una” e são mais os meios de comunicação e sua técnica é mais criativa. As distâncias se encurtam e de todos os rincões da nossa casa comum, que é a Terra, podemos nos tornar presença sensível.
Mas sucede que, muito antes de inventar qualquer tipo de técnica de comunicação, a Humanidade já tinha inventado o egoísmo e a hybris da dominação e os recursos malignos da mentira.
Hoje o capitalismo neoliberal, prepotente e excludente, que se apodera de tudo para fazer de tudo mercado e lucro, tem se apoderado, quase totalmente, da comunicação. Quem tem o capital tem a comunicação e a manipula e a explora e distorce. Por cima de todas as fronteiras, atropelando os mais legítimos direitos, apoderando-se da verdade, impondo como única e universal “sua” verdade: o pensamento único, o único sistema sócio-econômico, uma história definida e inevitável.
Nós nos negamos a aceitar o jugo. Cremos, até pela mais entranhada necessidade, que outro mundo é possível. Queremos ser a Humanidade una, mas de outro modo, na liberdade e na igualdade, na convivência pacífica e na pluralidade complementar. A Humanidade neoliberalizada não encaixa em nossos sonhos nem encaixa nos desígnios de Deus. Somos, queremos, vamos fazendo, outra Humanidade.
Humanizar a Humanidade é a tarefa de toda educação, de toda comunicação, de toda política e toda religião que mereçam ser.
Antes falávamos dos meios de comunicação como sendo o “quarto poder”. Hoje temos que reconhecê-los como “o primeiro poder” em extensão e em penetração. Quem tem a comunicação tem o Mundo. Mc Luhan reconhecia que “não há equipe de sociólogos capaz de competir com as equipes de publicidade...” E esse poder está muito iniquamente repartido na “aldeia global da comunicação”. Segundo a UNESCO, na década dos 90, EUA, UE e Japão possuíam 273 dos 300 principais meios de comunicação; o resto do Mundo possuía apenas 27. De cada 100 usuários da Internet, 92 se encontram nos paises do Norte. E este processo de concentração mediática tem-se acelerado com o avanço da globalização. Na atualidade, umas poucas empresas dominam o mercado mundial das telecomunicações: ATT/Liberty Media, Disney, Time Warner, Sony, News Corporation, Viacom e Seagram, todas elas estadunidenses, além da alemã Bertelsman. (sem falar no domínio dos grupos monopolizadores no Brasil)
Poder perigoso, esse da comunicação, aliado às vezes direitamente com certos poderes de morte. As últimas guerras têm sido um repulsivo exemplo da maridagem das armas e a informação. E mais uma vez tem-se demonstrado que a verdade é a primeira vítima em uma guerra. Não há muito saltou também ao conhecimento público que Le Figaro e Le Monde, tradicionais jornais franceses, eram adquiridos por empresas cuja fortuna se baseia principalmente na fabricação de armas...
Livros, revistas, jornais, congressos, ONGs, multiplicam os alertas, as diatribes e os programas acerca da informação e desinformação, controle ou liberdade de comunicação, comunicação alternativa, alfabetização mediática crítica... “Democratizar a informação para democratizar a sociedade”. “Estamos sendo inoculados pelo vírus da amnésia”. “No fim do 2003, 42 jornalistas tinham tombado no mundo por tentar exercer sua missão”. “A segurança limita a informação”. “As armas da falsidade massiva”. “A informação tem-se transformado quase por completo em propaganda”. “Em teoria, justifica-se a publicidade afirmando que é pura informação; na realidade, é imposição”. “As coisas claras são a diferença entre a democracia e a ditadura”. “Construir a opinião pública”. “Limitações constitucionais à liberdade de informação, uso repressivo das leis, processos contra o segredo das fontes, estabelecimento de códigos éticos restritivos, os Patriot Acts..., são outras tantas espadas de Damocles oficiais sobre as cabeças dos comunicadores”. Quanto mais informação, mais possível desinformação, mais informação tergiversadora. O escritor estadunidense Timothy D. Allman chegou a afirmar: “Para saber o que se passa nos EUA tenho que ver a TV canadense”.
Para uma autêntica cidadania mediática, essa “outra Comunicação para outra Humanidade”, devemos impulsionar simultaneamente:
- A prática habitual da comunicação: consigo, com Deus, com o Universo, na família, na vizinhança, no trabalho, na luta e na festa, na vida. O ser humano é “o grande meio de comunicação”; depois vêm “os meios”.
- A conscientização.
- A educação responsável para a comunicação.
- A “leitura” crítica de toda informação.
- A criação de informação alternativa e o respaldo constante à mesma.
- A contestação organizada contra todo controle, monopólio ou mentira.
- O rechaço de todo imperialismo cultural.
E, todo dia, a partir do mais caseiro espaço de que dispomos até as crescentes grandes manifestações, exercer esse supremo dom humano da comunicação, na verdade, na compreensão, na solidariedade. Nos comunicar para nos conhecer. Nos comunicar para nos acolher. Nos comunicar para juntos nos salvar.
Esta reflexão abre alguns horizontes, aponta pistas, nos convida a ser e a fazer comunicação, a outra Comunicação que a outra Humanidade sonhada necessita.
D. Pedro Casaldáliga
(Bispo, Poeta, Mártir da vida)
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
TEN - Teatro Experimental do Negro
TEN - Teatro Experimental do Negro
Com o TEN Abdias Nascimento buscou a inclusão do negro na esfera de criador cênico. Ao fundar o TEN – Teatro Experimental do Negro, em 1944, Abdias do Nascimento tinha por objetivo primordial inserir o negro no teatro brasileiro enquanto temática e, sobretudo, como criador cênico e intérprete dramático. Mais tarde, Abdias lembrou em um ensaio (“Teatro Negro no Brasil – Uma Experiência Sócio Racial”, Caderno Especial 2 da Revista Civilização Brasileira, 1968) que no século 18 a profissão do ator era considerada “desprezível, a mais vergonhosa de todas, abaixo das mais infames e criminosas”, sendo então permitido aos negros – e praticamente só aos negros – se dedicarem ao teatro. Consolidada a atividade teatral após a vinda da família real, no início do século 19, inverteu-se a situação: rapidamente o negro foi excluído da cena. Nas peças em que havia algum personagem negro, aparecia um branco com o rosto pintado, para interpreta-lo. Aos raros atores negros eram destinados papéis caricatos, de empregadinhos malandros, engraçados, inconseqüentes. Lembrou, também, a escassa presença de personagens negros na dramaturgia, a despeito da grande população negra e da sua importância no desenvolvimento sócio-cultural do país. O TEN estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro a 8 de maio de 1945, com a peça de Eugene O´Neill "O Imperador Jones", direção de Abdias do Nascimento, cenários de Enrico Bianco e elenco encabeçado por Aguinaldo de Oliveira Camargo, cujo desempenho foi saudado pela crítica como excepcional. A falta de dramas nacionais adequados aos propósitos do grupo, levou à escolha de outra peça de O´Neill na temporada seguinte: "Todos os Filhos de Deus Têm Asas", apresentada no Teatro Fênix, em 1946, com direção de Aguinaldo Camargo, cenários de Mário de Murtas, lançando uma atriz que se firmaria entre as maiores do nosso teatro: Ruth de Souza. Ano seguinte, encenou o primeiro original brasileiro do seu repertório: "O Filho Pródigo", de Lúcio Cardoso, com cenários de Santa Rosa. Seguiu-se "Aruanda", de Joaquim Ribeiro, sinalizando um veio dramatúrgico de temática negro-africana no Brasil. Estes e os espetáculos que o Teatro Experimental do Negro produziu nos anos 50 e 60 marcaram pelo rigor estético e vigor dramático, constituindo um dado relevante não apenas à discussão das questões do negro brasileiro, mas à própria estética do teatro nacional. Além das produções cênicas, o Teatro Experimental do Negro promoveu seminários, encontros e publicações sobre o tema. No referido artigo publicado no Caderno Especial 2 da Civilização Brasileira, Abdias do Nascimento concluiu: “O Teatro Experimental do Negro é um processo. A Negritude é um processo. Projetou-se a aventura teatral afro-brasileira na forma de uma antecipação, uma queima de etapas na marcha da História. Enquanto o negro não desperta completamente do torpor em que o envolveram. Na aurora do seu destino, o Teatro Negro do Brasil ainda não disse tudo ao que veio”.
Com o TEN Abdias Nascimento buscou a inclusão do negro na esfera de criador cênico. Ao fundar o TEN – Teatro Experimental do Negro, em 1944, Abdias do Nascimento tinha por objetivo primordial inserir o negro no teatro brasileiro enquanto temática e, sobretudo, como criador cênico e intérprete dramático. Mais tarde, Abdias lembrou em um ensaio (“Teatro Negro no Brasil – Uma Experiência Sócio Racial”, Caderno Especial 2 da Revista Civilização Brasileira, 1968) que no século 18 a profissão do ator era considerada “desprezível, a mais vergonhosa de todas, abaixo das mais infames e criminosas”, sendo então permitido aos negros – e praticamente só aos negros – se dedicarem ao teatro. Consolidada a atividade teatral após a vinda da família real, no início do século 19, inverteu-se a situação: rapidamente o negro foi excluído da cena. Nas peças em que havia algum personagem negro, aparecia um branco com o rosto pintado, para interpreta-lo. Aos raros atores negros eram destinados papéis caricatos, de empregadinhos malandros, engraçados, inconseqüentes. Lembrou, também, a escassa presença de personagens negros na dramaturgia, a despeito da grande população negra e da sua importância no desenvolvimento sócio-cultural do país. O TEN estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro a 8 de maio de 1945, com a peça de Eugene O´Neill "O Imperador Jones", direção de Abdias do Nascimento, cenários de Enrico Bianco e elenco encabeçado por Aguinaldo de Oliveira Camargo, cujo desempenho foi saudado pela crítica como excepcional. A falta de dramas nacionais adequados aos propósitos do grupo, levou à escolha de outra peça de O´Neill na temporada seguinte: "Todos os Filhos de Deus Têm Asas", apresentada no Teatro Fênix, em 1946, com direção de Aguinaldo Camargo, cenários de Mário de Murtas, lançando uma atriz que se firmaria entre as maiores do nosso teatro: Ruth de Souza. Ano seguinte, encenou o primeiro original brasileiro do seu repertório: "O Filho Pródigo", de Lúcio Cardoso, com cenários de Santa Rosa. Seguiu-se "Aruanda", de Joaquim Ribeiro, sinalizando um veio dramatúrgico de temática negro-africana no Brasil. Estes e os espetáculos que o Teatro Experimental do Negro produziu nos anos 50 e 60 marcaram pelo rigor estético e vigor dramático, constituindo um dado relevante não apenas à discussão das questões do negro brasileiro, mas à própria estética do teatro nacional. Além das produções cênicas, o Teatro Experimental do Negro promoveu seminários, encontros e publicações sobre o tema. No referido artigo publicado no Caderno Especial 2 da Civilização Brasileira, Abdias do Nascimento concluiu: “O Teatro Experimental do Negro é um processo. A Negritude é um processo. Projetou-se a aventura teatral afro-brasileira na forma de uma antecipação, uma queima de etapas na marcha da História. Enquanto o negro não desperta completamente do torpor em que o envolveram. Na aurora do seu destino, o Teatro Negro do Brasil ainda não disse tudo ao que veio”.
Divisões Perigosas...
(*) Edna Roland
O caso da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, ocorrido recentemente e que envolveu a empregada doméstica de cor parda Sirlei Dias de Carvalho Pinto, repete a mesma cena brasileira de tantos outros episódios: não se trata da ausência de limites, mas da existência da geografia da raça, cor, classe e gênero, traduzida em tacanhos estereótipos que expressam as hierarquias sociais vigentes.
Uma mulher parda, em um ponto de ônibus às 4h30 da manhã, só pode ser uma prostituta e, “portanto”, pode tornar-se um saco de pancadas de jovens quase brancos da emergente classe média da Barra da Tijuca. Convém lembrar que quatro desses jovens foram reconhecidos na delegacia pela empregada como os agressores que a espancaram e a roubaram.
O pai do quinto agressor — um estudante de Direito — bem treinado na ética brasileira, que aplica a lei de acordo com a raça e a classe do acusado e da vítima, declarou que “as crianças” (sic) que espancaram Sirlei não deveriam ser presas, pois estudam na faculdade e trabalham. Portanto, não são bandidos.
Bandidos, no Brasil, como sabemos, são sempre pardos ou pretos, são desempregados, não chegam à universidade (especialmente às públicas), moram em favelas onde podem ser mortos ao resistirem à polícia, tenham ou não praticado crimes, sejam crianças, adolescentes ou adultos.
Como, provavelmente, não leram o livro organizado pelos líderes do Manifesto contra as Cotas Raciais, os “pueris” tijucanos não ficaram sabendo que no país não existem divisões raciais: ignoraram que brasileiros de todos os tons de pele se misturam, e que não podemos aceitar a introdução de uma divisão legal que separe e divida o povo. Deve ser, por isso, que quebraram o braço e o rosto da mulher.
Os agressores de Sirlei ignoraram, assim, que “raça não existe”. Não agiram por causa de “raças oficiais”, supostamente criadas agora pelas políticas de ação afirmativa que estão colocando negros nas universidades brasileiras. Agiram a partir do velho racismo nacional, que pode ser muito confortável para pesquisadores que, durante décadas, se beneficiaram de recursos para estudar um fenômeno “tão peculiar” e que, agora, começa a ser enfrentado por políticas propostas por aqueles que foram o seu objeto de estudo.
Diferentemente do que supõem alguns, o comportamento dos jovens, que moram em condomínio de luxo, não resulta de uma falha na sua formação familiar. Pelo contrário, expressa a eficácia da introjeção do racismo, do sexismo e da formação dada pela família, pela escola, por universidades em que não se convive com pessoas negras em pé de igualdade.
Ao contrário do que propalam os seus detratores, as políticas de ação afirmativa nas universidades promovem a integração racial. Além de garantirem o acesso ao ensino superior a negros e estudantes egressos de escolas públicas, ao colocar lado a lado negros e brancos no ambiente universitário, elas têm o potencial de humanizar os jovens brancos das classes média e alta, habituados a pensar que negros e negras são cidadãos de segunda classe, destinados a serem objeto do seu prazer e do seu ódio.
(*) A autora é psicóloga, integrante do Grupo de Especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) para o programa de ação da 3ª Conferência Mundial contra o Racismo e responsável pela Coordenadoria da Mulher e da Igualdade Racial da Prefeitura de Guarulhos (SP).
O caso da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, ocorrido recentemente e que envolveu a empregada doméstica de cor parda Sirlei Dias de Carvalho Pinto, repete a mesma cena brasileira de tantos outros episódios: não se trata da ausência de limites, mas da existência da geografia da raça, cor, classe e gênero, traduzida em tacanhos estereótipos que expressam as hierarquias sociais vigentes.
Uma mulher parda, em um ponto de ônibus às 4h30 da manhã, só pode ser uma prostituta e, “portanto”, pode tornar-se um saco de pancadas de jovens quase brancos da emergente classe média da Barra da Tijuca. Convém lembrar que quatro desses jovens foram reconhecidos na delegacia pela empregada como os agressores que a espancaram e a roubaram.
O pai do quinto agressor — um estudante de Direito — bem treinado na ética brasileira, que aplica a lei de acordo com a raça e a classe do acusado e da vítima, declarou que “as crianças” (sic) que espancaram Sirlei não deveriam ser presas, pois estudam na faculdade e trabalham. Portanto, não são bandidos.
Bandidos, no Brasil, como sabemos, são sempre pardos ou pretos, são desempregados, não chegam à universidade (especialmente às públicas), moram em favelas onde podem ser mortos ao resistirem à polícia, tenham ou não praticado crimes, sejam crianças, adolescentes ou adultos.
Como, provavelmente, não leram o livro organizado pelos líderes do Manifesto contra as Cotas Raciais, os “pueris” tijucanos não ficaram sabendo que no país não existem divisões raciais: ignoraram que brasileiros de todos os tons de pele se misturam, e que não podemos aceitar a introdução de uma divisão legal que separe e divida o povo. Deve ser, por isso, que quebraram o braço e o rosto da mulher.
Os agressores de Sirlei ignoraram, assim, que “raça não existe”. Não agiram por causa de “raças oficiais”, supostamente criadas agora pelas políticas de ação afirmativa que estão colocando negros nas universidades brasileiras. Agiram a partir do velho racismo nacional, que pode ser muito confortável para pesquisadores que, durante décadas, se beneficiaram de recursos para estudar um fenômeno “tão peculiar” e que, agora, começa a ser enfrentado por políticas propostas por aqueles que foram o seu objeto de estudo.
Diferentemente do que supõem alguns, o comportamento dos jovens, que moram em condomínio de luxo, não resulta de uma falha na sua formação familiar. Pelo contrário, expressa a eficácia da introjeção do racismo, do sexismo e da formação dada pela família, pela escola, por universidades em que não se convive com pessoas negras em pé de igualdade.
Ao contrário do que propalam os seus detratores, as políticas de ação afirmativa nas universidades promovem a integração racial. Além de garantirem o acesso ao ensino superior a negros e estudantes egressos de escolas públicas, ao colocar lado a lado negros e brancos no ambiente universitário, elas têm o potencial de humanizar os jovens brancos das classes média e alta, habituados a pensar que negros e negras são cidadãos de segunda classe, destinados a serem objeto do seu prazer e do seu ódio.
(*) A autora é psicóloga, integrante do Grupo de Especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) para o programa de ação da 3ª Conferência Mundial contra o Racismo e responsável pela Coordenadoria da Mulher e da Igualdade Racial da Prefeitura de Guarulhos (SP).
quarta-feira, 8 de julho de 2009
CARTA DE UMA JOVEM CONTESTADORA II
Nobre Senador Demóstenes,
Fico realmente feliz de saber que minhas palavras mecheram com sua excelentíssima consciência. Fico também muito feliz de estar enganada a respeito de sua dedicação integral a projetos que não beneficiam em nada a tão carente juventude brasileira, carente de tudo mesmo de recursos, de bons exemplos, de interesse público e principalmente carente de compreensão. Faço coro com Vossa Excelência quanto à aprovação da escola integral. Acho uma idéia excelente! Geraria empregos, diminuiria o tempo ocioso dos jovens, melhoraria (acredito eu) o nível de ensino, entre muitos outros benefícios. Se sua intenção é verdadeiramente "fazer o que puder para salvar essa juventude", acredito que não só eu, mas todos aqueles que acreditam na juventude, também apoiarão esse projeto. E, ao contrário de que O nobre senador acredita, não estou nem um pouco interessada em criticar apenas, pertenço a uma geração que nem perde tempo em criticar, mas felizmente pertenço a uma minoria que acredita em um outro mundo possível, que acredita no poder de atos e palavras coerentes para modificar uma realidade tristemente violenta como a do Brasil. Eu penso que o nosso país precisa de iniciativas eficazes não só no combate à violência, como também para diminuir a desigualdade social e para acabar com o preconceito, a ignorância e a imensa omissão que assombram o povo brasileiro. Como cidadã e principalmente com cristã que sou, apóio sim a iniciativa da escola em tempo integral, como apóio projetos para modificação do sistema penitenciário, uma reforma política eficiente,o fim da imunidade parlamentar e esse (eu diria) mau hábito de ficara travancando as pautas de votação, mas continuo a condenar a redução da maioridade penal e todos aqueles que a defendem por não conhecer, de fato, o rosto da juventude. Nobre senador, encerro dizendo que hipócritas são aqueles que fazem aquilo em que não acreditam, que não tem ideais, ou se tem, fingem não vê-los sendo destruídos. E, se em palavra de senador ainda se acredita, cumpro o combinado, apóio o projeto de Vossa Excelência e faço também que outros o apóiem, e em troca reveja seus conceitos, vá conhecer a juventude e depois, repense a questão da redução da maioridade penal.
Mais uma vez:
"Se os maus fazem tudo o que podem para corromper a juventude, façamos nós tudo o que pudermos para salvá-la."
Atenciosamente,
Nathalia Dutra.
Fico realmente feliz de saber que minhas palavras mecheram com sua excelentíssima consciência. Fico também muito feliz de estar enganada a respeito de sua dedicação integral a projetos que não beneficiam em nada a tão carente juventude brasileira, carente de tudo mesmo de recursos, de bons exemplos, de interesse público e principalmente carente de compreensão. Faço coro com Vossa Excelência quanto à aprovação da escola integral. Acho uma idéia excelente! Geraria empregos, diminuiria o tempo ocioso dos jovens, melhoraria (acredito eu) o nível de ensino, entre muitos outros benefícios. Se sua intenção é verdadeiramente "fazer o que puder para salvar essa juventude", acredito que não só eu, mas todos aqueles que acreditam na juventude, também apoiarão esse projeto. E, ao contrário de que O nobre senador acredita, não estou nem um pouco interessada em criticar apenas, pertenço a uma geração que nem perde tempo em criticar, mas felizmente pertenço a uma minoria que acredita em um outro mundo possível, que acredita no poder de atos e palavras coerentes para modificar uma realidade tristemente violenta como a do Brasil. Eu penso que o nosso país precisa de iniciativas eficazes não só no combate à violência, como também para diminuir a desigualdade social e para acabar com o preconceito, a ignorância e a imensa omissão que assombram o povo brasileiro. Como cidadã e principalmente com cristã que sou, apóio sim a iniciativa da escola em tempo integral, como apóio projetos para modificação do sistema penitenciário, uma reforma política eficiente,o fim da imunidade parlamentar e esse (eu diria) mau hábito de ficara travancando as pautas de votação, mas continuo a condenar a redução da maioridade penal e todos aqueles que a defendem por não conhecer, de fato, o rosto da juventude. Nobre senador, encerro dizendo que hipócritas são aqueles que fazem aquilo em que não acreditam, que não tem ideais, ou se tem, fingem não vê-los sendo destruídos. E, se em palavra de senador ainda se acredita, cumpro o combinado, apóio o projeto de Vossa Excelência e faço também que outros o apóiem, e em troca reveja seus conceitos, vá conhecer a juventude e depois, repense a questão da redução da maioridade penal.
Mais uma vez:
"Se os maus fazem tudo o que podem para corromper a juventude, façamos nós tudo o que pudermos para salvá-la."
Atenciosamente,
Nathalia Dutra.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
CARTA DE UMA JOVEM CONTESTADORA
Caro senador,
Há muito tempo viveu em Roma uma mulher incrível chamada Paula, que deixou sua casa e sua família para cuidar de jovens doentes e para dar a eles carinho, proteção e educação. Essa mulher, Paula, inspirou milhares de pessoas pelo mundo a fazer o mesmo, parece que o nobre senador não foi uma delas. Eu não sei bem quais foram seus argumentos para defender a redução da maioridade penal, e nem sei quais foram as "armas" para convencer seus nobres colegas, o que eu realmente sei é que esse pode ter sido omais infeliz dos seus projetos que, sem contar com a sorte, visto que estamos no Brasil, logo será esquecido ou desvinculado do seu nobre nome.
O nobre senador acredita mesmo que essa é uma saída para diminuir a criminalidade? Acredita realmente que colocar jovens de dezesseis cadeia, nessas que conhecemos bem Brasil a fora, vai cumprir o papel sócio-educativo para o qual elas foram criadas? Caro Senador, ao invés de ter essa infeliz idéia, porque não se empenha em criar projetos que possam salvar essa juventude, e não condenar? Por que não começa a se interessar por projetos para educação, segurança, saúde?
Porque com isso seu nome será esquecido mais facilmente? Porque a mídia dará menos importância? Eu até entendo seus motivos, vida de político no Brasil é mesmo muito difícil!
Para finalizar, não poderia deixar de citar Paula: "Se os maus fazem tudo o que podem para corromper a juventude, façamos nós tudo o que pudermos para salvá-la!"
Nobre senador, não cabe a mim dizer em qual parte dessa frase vossa excelência se encaixa, cabe somente à sua nobre consciência.
Nathália Ductra.
Há muito tempo viveu em Roma uma mulher incrível chamada Paula, que deixou sua casa e sua família para cuidar de jovens doentes e para dar a eles carinho, proteção e educação. Essa mulher, Paula, inspirou milhares de pessoas pelo mundo a fazer o mesmo, parece que o nobre senador não foi uma delas. Eu não sei bem quais foram seus argumentos para defender a redução da maioridade penal, e nem sei quais foram as "armas" para convencer seus nobres colegas, o que eu realmente sei é que esse pode ter sido omais infeliz dos seus projetos que, sem contar com a sorte, visto que estamos no Brasil, logo será esquecido ou desvinculado do seu nobre nome.
O nobre senador acredita mesmo que essa é uma saída para diminuir a criminalidade? Acredita realmente que colocar jovens de dezesseis cadeia, nessas que conhecemos bem Brasil a fora, vai cumprir o papel sócio-educativo para o qual elas foram criadas? Caro Senador, ao invés de ter essa infeliz idéia, porque não se empenha em criar projetos que possam salvar essa juventude, e não condenar? Por que não começa a se interessar por projetos para educação, segurança, saúde?
Porque com isso seu nome será esquecido mais facilmente? Porque a mídia dará menos importância? Eu até entendo seus motivos, vida de político no Brasil é mesmo muito difícil!
Para finalizar, não poderia deixar de citar Paula: "Se os maus fazem tudo o que podem para corromper a juventude, façamos nós tudo o que pudermos para salvá-la!"
Nobre senador, não cabe a mim dizer em qual parte dessa frase vossa excelência se encaixa, cabe somente à sua nobre consciência.
Nathália Ductra.
Assinar:
Postagens (Atom)
