sexta-feira, 3 de julho de 2009
CARTA DE UMA JOVEM CONTESTADORA
Há muito tempo viveu em Roma uma mulher incrível chamada Paula, que deixou sua casa e sua família para cuidar de jovens doentes e para dar a eles carinho, proteção e educação. Essa mulher, Paula, inspirou milhares de pessoas pelo mundo a fazer o mesmo, parece que o nobre senador não foi uma delas. Eu não sei bem quais foram seus argumentos para defender a redução da maioridade penal, e nem sei quais foram as "armas" para convencer seus nobres colegas, o que eu realmente sei é que esse pode ter sido omais infeliz dos seus projetos que, sem contar com a sorte, visto que estamos no Brasil, logo será esquecido ou desvinculado do seu nobre nome.
O nobre senador acredita mesmo que essa é uma saída para diminuir a criminalidade? Acredita realmente que colocar jovens de dezesseis cadeia, nessas que conhecemos bem Brasil a fora, vai cumprir o papel sócio-educativo para o qual elas foram criadas? Caro Senador, ao invés de ter essa infeliz idéia, porque não se empenha em criar projetos que possam salvar essa juventude, e não condenar? Por que não começa a se interessar por projetos para educação, segurança, saúde?
Porque com isso seu nome será esquecido mais facilmente? Porque a mídia dará menos importância? Eu até entendo seus motivos, vida de político no Brasil é mesmo muito difícil!
Para finalizar, não poderia deixar de citar Paula: "Se os maus fazem tudo o que podem para corromper a juventude, façamos nós tudo o que pudermos para salvá-la!"
Nobre senador, não cabe a mim dizer em qual parte dessa frase vossa excelência se encaixa, cabe somente à sua nobre consciência.
Nathália Ductra.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
OS ESPAÇOS POPULARES NA POLÍTICA PÚBLICA CULTURAL.
O sucesso de uma política pública para superação das desigualdades sociais, sobretudo as presentes em nossas metrópoles, só será possível quando esta abrigar uma política cultural que incorpore a diversidade da vida social dos espaços populares. Não podemos mais nos conceber cidadãos plenos quando vivemos divididos em lugares de supremacia cultural e lugares subalternizados, simplesmente porque estes últimos não trazem um legado cultural hegemônico ou representam uma contracorrente ao mercado criado pela indústria cultural.
Cada grupo social é portador de signos de referência e códigos sociais inseridos em determinados territórios. Podemos dizer, então, que o território é um espaço/tempo demarcado por intencionalidades humanas, cujas identidades possuem fluxos de correspondência e intensidades plurais, principalmente no tocante a afirmação individual e de grupos na sociedade urbana.
A cultura é sempre diversa, dinâmica e plural. Multiplicam-se pela cidade os signos impressos nas falas, nos gestos, nas roupas, na música, na dança. Eles reportam as moradas dos grupos sociais e, conseqüentemente, a condição de cada um na sociedade.
Porém, isso tem significado, em larga medida, posições de privilégio ou não na escala de valores e práticas hegemônicas no espaço metropolitano. Resulta desse processo sitiamentos de territórios que, por sua vez, reduzem e / ou confinam as possibilidades trocas simbólicas e culturais. Romper com essa redução sociocultural dos territórios da cidade significa o reconhecimento da legitimidade da presença do Outro, da sua atividade criativa e do direito de manifestar as suas leituras do mundo.
Valorizar e mobilizar a diversidade de manifestações culturais e artísticas dos moradores dos espaços populares é um ato primordial de construção de uma sociabilidade urbana renovada. Vislumbra-se, como efeito, a ampliação da circularidade de imaginários, de obras, de bens e práticas culturais na cidade sob o primado da comunicação entre próximos e distantes. Afinal, a cultura se torna mais rica quando expandimos as nossas trocas de imaginários, de saberes, de fazeres e convivências.
Essa proposta nos remete a superação das desigualdades sociais, pois estas não dizem respeito exclusivamente aos aspectos econômicos: distribuição de renda, desemprego, consumo. Elas estão expressas em outras condições de existência social: na escolarização, na habitação, na saúde e no acesso aos bens e equipamentos culturais.
A distribuição espacial de equipamentos e bens culturais em nossas metrópoles é um retrato perverso das desigualdades sociais. Há uma forte concentração de teatros, cinemas e espaços culturais nas áreas centrais nos bairros típicos de classes médias. Entretanto, em nossas favelas e periferias os investimentos públicos de porte no âmbito da arte e da cultura são de pequena importância, precários ou inexistentes. Em contrapartida, desses espaços populares que emergem diferentes subjetividades como forma / conteúdo de linguagens inovadoras, geralmente desconsideradas e desvalorizadas no campo das concepções ainda hegemônicas de arte e cultura.
Retomando ao tema da inflexão territorial das políticas públicas, não é mais possível aceitar a concentração desmedida na distribuição de bens e equipamentos culturais, especialmente os criados pelo poder público. Então, é urgente e inadiável investimentos diretos nos espaços populares. Tais investimentos seriam de extrema importância em termos educacionais, artísticos e, inclusive no tocante a segurança pública, pois podem significar transformações nas condições de existência não só nas favelas, como também dos demais bairros vizinhos.
É preciso reconhecer que a metrópole é produto da diversidade da vida social, cultural e pessoal. Isto significa dizer que a cidade deve ser pensada, tratada e vivida como um bem público comum, e não como um espaço de desigualdades. Mudar a metrópole é agir no seu cotidiano. È romper com a banalização do consumo como paradigma de civilidade. È superar os pré-conceitos, estigmas e reducionismos que classificam as favelas e seus habitantes como entes e seres fora da Polis.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
CULTURA NEGRA LATINO AMERICANA É DESTAQUE EM MOSTRA DE CINEMA
estará em cartaz na CAIXA Cultural RJ de 12 a 17 de maio. Entrada franca.
Retratar uma América latina negra - suas especificidades e riquezas culturais - num mosaico composto pela exibição de longas, médias e curtas-metragens; debates, palestras, mesas-redondas e a presença de cineastas, pesquisadores, produtores e artistas de países como Chile, Venezuela e Brasil. Essa é a proposta da Mostra de Cinema Raízes Negras Latino-Americanas II que ocupará de 12 a 17 de maio de 2009 duas salas da CAIXA Cultural RJ (Avenida Almirante Barroso, 25, Centro) e também no Instituto Cervantes. Entrada franca.
A Mostra foi idealizada pela produtora peruana Rocío Salazar, que vive no Brasil há 13 anos e tem no currículo a produção de três documentários afro-peruanos. Rocío criou no país o Encontros Latino-Americanos – projeto através do qual busca fomentar o intercâmbio de todas as manifestações artísticas latino-americanas. “A partir da minha experiência na produção desses documentários, percebi um leque de possibilidades muito interessante. Existe uma rica produção cultural nos países de raízes negras da América Latina focada nas questões afrodescendentes, mas ainda pouco difundida. Precisamos romper com essa barreira, abrir o diálogo e interagir profissionalmente para que esse intercâmbio cultural aconteça com mais freqüência” explica Rocío.
Oro Negro (Chile), Negro Ché (Argentina) e O Pecado da Intolerância (inédito de Joel Zito) são alguns dos filmes que integram a Mostra
A Mostra de Cinema Raízes Negras Latino-Americanas II estará reunindo 20 produções (7 filmes de película e 13 vídeos) a maioria documentários - alguns deles inéditos - oriundos de países como Peru, Equador, Chile, Bolívia, Argentina e Brasil, em exibição entre os 12 e 17 de maio nas salas de cinema da CAIXA Cultural assim divididos: Sala 1 (filmes) às 14h e 17h e Sala 2 (vídeos) às 16h e 19h. Um dos destaques é o chileno Oro Negro que narra como vivem os descendentes de africanos que foram levados ao Chile como escravos e o desafio para serem reconhecidos em um país que está começando a tomar consciência de sua interculturalidade.
Outro filme que intrega a mostra – Negro Ché - mostra a organização de um reencontro na velha Casa Suíça (Argentina), onde a comunidade afroargentina se reunia, e a luta que hoje em dia travam para sobreviver ao isolamento e assimilação que se pretende para esse grupo social naquele país.
Joel Zito Araujo exibirá na mostra o inédito O Pecado da Intolerância – filme que não passou pelo circuito comercial e que faz parte de uma série de vídeos que o cineasta dirigiu para o CEERT – Centro de Estudo das Relações de Trabalho e Desigualdades como parte de uma campanha contra a intolerância religiosa no Brasil.
Outra obra que estará em exibição na mostra é Abolição, filme emblemático de Zózimo Bulbul. O longa, que será exibido no dia 14 de maio, marcou (na época de sua produção) o centenário da Abolição da Escravatura no Brasil, descrevendo várias situações enfrentadas pelos afrodescedentes brasileiros até hoje. Após a exibição do filme, Zózimo Bulbul participará de um debate com o público.
Palestras e debates reúnem Jesús Garcia - Ministro Venezuelano, Pedro Lapera, Jeferson De e Hernani Heffner
Também na CAIXA Cultural, as palestras e mesas de debates – nos dias 13, 14 e 15 de maio - terão como convidados pesquisadores, produtores e cineastas com trabalhos voltados à questão dos afrodescendentes na América Latina.
Abrindo a programação, no dia 12 na sala de Cinema 1, Pedro Lapera conduz o debate Um Olhar Sobre as Relações Raciais em Quanto Vale ou é Por Quilo? - título do estudo de Pedro sobre o filme Quanto vale ou é por quilo? de Sérgio Bianchi. Esse estudo foi publicado pela SOCINE – Sociedade de Estudos de Cinema.
Entre as mesas-redondas, destaque para o bate-papo que reúne o atual Ministro Conselheiro da Missão da Embaixada da República Bolivariana (Venezuela) em Angola, Jesús García – que juntamente com Joel Zito Araújo e uma mãe de santo brasileira – debatendo o tema Cultura Negra – a afirmação de suas expressões entre a diversidade e a intolerância.
Outros temas em debate são O Negro nas Narrativas Audiovisuais Contemporâneas reunindo nomes como Antonio Molina (Cuba), Jéferson De, Hernani Heffner, Guilherme Coelho e Tales Moreira; e Afro-descendentes na América Latina: Identidade e Identificação reunindo Pedro Amaral, Maria Cristina Prates e Claudia Serrano.
No Instituto Cervantes, atores hispânicos fazem inédita leitura dramatizada da obra de Antonio Callado
No dia 15 de maio, como parte integrante da Mostra de Cinema Raízes Negras Latino-Americanas II, haverá no Instituto Cervantes a exibição do filme Oro Negro de Bruno Serrano, seguido de debate e a leitura dramatizada da obra de Antônio Callado, Pedro Mico. O texto teatral, que está sendo traduzido para espanhol, será interpretado pelos atores hispânicos Carolina Virguez (Colômbia),Rosana Reátegui (Peru), Alvaro Pilares (Peru) , Edison Mego (Peru) e Miguel Angel Zamorano (Espanha) – este ultimo, também diretor da leitura.
“A versão em espanhol de “Pedro Mico” é inédita no Rio e sua leitura ressalta a aproximação dessa peça brasileiríssima e a língua hispânica” comenta Rocío Salazar.
Quem apóia essa iniciativa
A Mostra de Cinema Raízes Negras Latino-americanas II está sendo patrocinado pela CAIXA Cultural e conta ainda com apoiadores e parceiros institucionais, como o Instituto Cervantes, Casa de Criação, Restaurante Intihuasi, Hotel Payssandú, Secretaria Estadual de Educação do Governo do Rio de Janeiro, CTAv, Cinemateca do museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Centro Cultural Afro-equatoriano, Casa da América Latina, TV Comunitária do Rio de Janeiro, ITV – Instituto Tocando em Você, Lidador, Apeerj – Associação de Professores de Espanhol do Estado do Rio de Janeiro, Terra Firme Digital, entre outros.
SERVIÇO
Mostra de Cinema Raízes Negras Latino-Americanas II
Mostra de filmes e debates enfocando a produção audiovisual latino-americana dedicada a cultura afro-descendente. Países participantes: Peru, Equador, Chile, Bolívia, Argentina e Brasil. Período: de 12 a 17 de maio em horários diversos
CAIXA Cultural RJ
Avenida Almirante Barroso, 25 – Centro. Sala de vídeo e cinema
Informações: (21) 2544-4080 / 1099 /7666
Capacidade: sala de cinema - 85 pessoas e sala de vídeo - 83 pessoas.
Exibição do filme Oro Negro, debate e leitura dramatizada da obra Pedro Mico, de Antônio Callado
Rua do Carmo, 27 – Centro. Informações: 3231-6566
TODA A PROGRAMAÇÃO TEM ENTRADA FRANCA
Informações para a imprensa
Target Assessoria de Comunicação
Márcia Vilella / Hayla Leite – target@target.inf.br
Tels.: 21 2284 2475 /8158 9692 /8884 1337
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Jovens, Negros, Índios, Rebeldes e Competentes
Dia 13 de agosto de 2008, tive o privilégio de assistir na Reitoria da UFBA, em Salvador, a aula aberta do professor Boaventura Sousa Santos, doutor em Sociologia do Direito e professor titular da Universidade de Coimbra. Considerado o principal intelectual das Ciências Sociais hoje, o professor tem se interessado em pesquisar a diversidade cultural no Brasil, as experiências de democracia representativa como o Orçamento Participativo de Porto Alegre e as favelas do Rio de Janeiro. Dentre seus livros, A Crítica da Razão Indolente e Pela Mão de Alice. O grande saque do convite ao professor partiu do Curso Avançado sobre Relações Étnicas e Raciais Fábrica de Idéias, do CEAO- Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA.
Ao abordar o tema “Direitos Humanos, Multiculturalismo e Descolonização”, ele defendeu o Sistema de Cotas para índios e negros nas universidades brasileiras, mas alertou que deve ser passageiro, parte de uma política mais efetiva de inclusão social. Denunciou o nosso olhar colonizador sobre as minorias políticas, chamou todos para investir na formação de “rebeldes competentes” que apostem numa sociedade plural, igualitária, justa, com direitos coletivos. Sobre o sistema capitalista, criticou as desigualdades sociais e a dominação do mercado econômico sobre o mercado político que gera a corrupção nefasta à democracia.
Lembrei de imediato da luta dos quilombolas, dos estudantes, dos jovens, negros e índios, das mulheres, dos trabalhadores sem terra. Me dei conta, concordando com Boaventura, o quanto a mídia em geral tem “demonizado” suas ações, reforçado estereótipos, criado representações e sentidos como se ameaçassem a ordem e a soberania nacionais.
Reportei no tempo em que a militância na ANAI - Associação de Ação Indigenista, me aproximou, nos anos 80, dos índios Kiriri, Pankararé, Pataxó, Pataxó Hã Hã Hãe e Tuxá e de sua incansável batalha para recuperar territórios invadidos, dignidade, direitos usurpados. Com o nosso apoio, foram formados monitores de alfabetização, trabalho baseado na obra de Paulo Freire, valorizando a cultura local. Aqueles jovens viraram multiplicadores e muitos vieram depois para seguir lendo com outros olhos o mundo. Aprendi muito com essa experiência, como jovem branca, universitária, de classe média, pude compreender na época, que precisamos construir com práticas comunitárias inovadoras um novo projeto social. Hoje retomo meu projeto de ajudar a formar “rebeldes competentes” como afirma o professor Boaventura, contribuindo para que jovens sejam protagonistas, assumam como sujeitos a história de nosso país. Certamente com eles continuarei aprendendo a alimentar minha “utopia realista” por um Brasil plural.sábado, 14 de março de 2009
RACISMO LINGUÍSTICO DO BRASIL.
O RACISMO LINGÜÍSTICO DO BRASIL
Marcos Bagno - Setembro de 2008
Que o Brasil é um país entranhadamente racista é coisa sabida e consabida. As estatísticas estão aí, como se fosse necessário o positivismo dos dados para confirmar: embora os não-brancos representem hoje metade da população, somente 14% deles têm curso superior; só 13,1% têm assento no Congresso Nacional, ao mesmo tempo em que constituem 70% da população analfabeta. Se isso não é racismo, sr. Ali Kamel, então me diga o que é. Impregnado nas mais diversas esferas sociais, poucas pessoas, no entanto, se dão conta de que também existe um racismo profundo na história lingüística do Brasil.
Logo após a Independência, nossa ínfima elite intelectual se divertiu com o debate sobre o estabelecimento de uma norma-padrão para o português brasileiro. De um lado, os defensores da "língua brasileira" sustentavam a autonomia do nosso português com relação ao falado na Europa e lutavam pelo reconhecimento das características idiomáticas da nossa fala urbana como legítimas, inclusive para o uso na literatura. Do outro, os que recusavam essas características e defendiam a observância rígida das normas gramaticais do português lusitano. Liberais ou conservadores, porém, todos lutavam contra um mesmo fantasma: o português brasileiro falado pela imensa maioria da população, composta de negros e mestiços, e que trazia (e traz) as marcas dos processos de contato lingüístico entre o português e as diferentes línguas africanas aqui chegadas junto com os escravos.
Essa é a origem do abismo largo e fundo que separa, até hoje, a língua que os brasileiros falam (e escrevem) - inclusive os altamente letrados com vivência urbana - das prescrições irreais e irracionais de uma norma-padrão fixada, já na origem, como uma impossibilidade de realização plena por parte de qualquer brasileiro. Ao contrário de outras sociedades, democráticas de fato, em que os usos lingüísticos reais das camadas letradas urbanas servem de base para se fixar o padrão a ser descrito pelas gramáticas e dicionários, ensinado nas escolas etc., no Brasil vivemos uma esquizofrenia lingüística: falamos o português brasileiro, resultante de 500 anos de contato lingüístico com idiomas africanos e indígenas, a terceira língua mais falada do hemisfério ocidental, mas utilizamos, como normas de regulação dessa língua, um conjunto de prescrições absurdas, arcaicas, já obsoletas em meados do século XIX, que contradizem frontalmente o nosso saber lingüístico intuitivo.
O português brasileiro é uma língua para a qual confluíram e confluem matrizes lingüísticas européias, ameríndias e africanas. Se tantos brasileiros pronunciam "djia" e "tchia" o que se escreve dia e tia é porque mamaram essas pronúncias junto com o leite das suas babás negras, junto com tantas coisas maravilhosas que os africanos nos legaram e que nossas classes dominantes continuam a repudiar como se não fossem suas, embora essas coisas estejam inscritas no DNA de todos os brasileiros.
quarta-feira, 11 de março de 2009
"A Coordenação Nacional da CPT diante das manifestações do presidente do STF, Gilmar Mendes, vem a público se manifestar.No dia 25 de fevereiro, à raiz da morte de quatro seguranças armados de fazendas no Pernambuco e de ocupações de terras no Pontal do Paranapanema, o ministro acusou os movimentos de praticarem ações ilegais e criticou o poder executivo de cometer ato ilícito por repassar recursos públicos para quem, segundo ele, pratica ações ilegais.
(...)
O ministro, então, anunciou a decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), do qual ele mesmo é presidente, de recomendar aos tribunais de todo o país que seja dada prioridade a ações sobre conflitos fundiários.
Esta medida de dar prioridade aos conflitos agrários era mais do que necessária. Quem sabe com ela aconteça o julgamento das apelações dos responsáveis pelo massacre de Eldorado de Carajás, (PA), sucedido em 1996; tenha um desfecho o processo do massacre de Corumbiara, (RO), (1995); seja por fim julgada a chacina dos fiscais do Ministério do Trabalho, em Unaí, MG (2004); seja também julgado o massacre de sem terras, em Felisburgo (MG) 2004; o mesmo acontecendo com o arrastado julgamento do assassinato de Irmã Dorothy Stang, em Anapu (PA) no ano de2005, e cuja federalização foi negada pelo STJ, em 2005.
Quem sabe com esta medida possam ser analisados os mais de mil e quinhentos casos de assassinato de trabalhadores do campo. A CPT, com efeito, registrou de 1985 a 2007, 1.117 ocorrências de conflitos com a morte de 1.493 trabalhadores. (Em 2008, ainda dados parciais, são 23 os assassinatos). Destas 1.117 ocorrências, só 85 foram julgadas até hoje, tendo sido condenados 71 executores dos crimes e absolvidos 49 e condenados somente 19 mandantes, dos quais nenhum se encontra preso. Ou aguardam julgamento das apelações em liberdade, ou fugiram da prisão, muitas vezes pela porta da frente, ou morreram.
Alguém já viu, por acaso, este presidente do Supremo se levantar contra a violência que se abate sobre os trabalhadores do campo, ou denunciar a grilagem de terras públicas, ou cobrar medidas contra os fazendeiros que exploram mão-de-obra escrava?
(...)
Ao contrário, o ministro vem se mostrando insistentemente zeloso em cobrar do governo as migalhas repassadas aos movimentos que hoje abastecem dezenas de cidades brasileiras com os produtos dos seus assentamentos, que conseguiram, com sua produção, elevar a renda de diversos municípios, além de suprirem o poder público em ações de educação, de assistência técnica, e em ações comunitárias. O ministro não faz a mesma cobrança em relação ao repasse de vultosos recursos ao agronegócio e às suas entidades de classe.
(...)
O ministro Gilmar Mendes não esconde sua parcialidade e de que lado está. Como grande proprietário de terra no Mato Grosso ele é um representante das elites brasileiras, ciosas dos seus privilégios.
(...)
O poder judiciário, na maioria das vezes leniente com a classe dominante é agílimo para atender suas demandas contra os pequenos e extremamente lento ou omisso em face das justas reivindicações destes. Exemplo disso foi a veloz libertação do banqueiro Daniel Dantas, também grande latifundiário no Pará, mesmo pesando sobre ele acusações muito sérias, inclusive de tentativa de corrupção.
O Evangelho é incisivo ao denunciar a hipocrisia reinante nas altas esferas do poder: “Ai de vocês, guias cegos, vocês coam um mosquito, mas engolem um camelo” (MT 23,23-24).
Que o Deus de Justiça ilumine nosso País e o livre de juízes como Gilmar Mendes!
Goiânia, 6 de março de 2009.
Dom Xavier Gilles de Maupeou d’Ableiges, Presidente da Comissão Pastoral da Terra"
terça-feira, 3 de março de 2009
Hino a Internacional Socialista
De pé famélicos da terra
Da idéia a chama já consome
A crosta bruta que a soterra
Cortai o mal bem pelo fundo
De pé, de pé, não mais senhores
Se nada somos em tal mundo
Sejamos tudo ó produtores.
Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional
Senhores patrões chefes supremos
Nada esperamos de nenhum
Sejamos nós que conquistemos
A terra mãe livre comum
Para não ter protestos vãos
Para sair deste antro estreito
Façamos com nossas mãos
Tudo o que a nós nos diz respeito.
O crime do rico a lei o cobre
O Estado esmaga o oprimido
Não há direito para o pobre
Ao rico tudo é permitido.
À opressão não mais sujeitos
Somos iguais todos os seres
Não mais deveres sem direitos
Não mais direitos sem deveres...
AXÉ!
PAZ & BEM!!
VIVA O SOCIALISMO!!!
